quarta-feira, julho 18, 2007

Ser brasileiro é...

O Brasil é um país próspero. Nossa patria amargamente amada, onde tudo que se planta infelizmente cresce.
Plantamos ganância e colhemos corrupção. Plantamos indiferença, colhemos violência.
Plantamos leis dúbias e furadas, colhemos impunibilidade. Plantamos enriquecimento, colhemos desníveis sociais
Plantamos desrespeito, colhemos ódio. Plantamos anafalbetismo, colhemos pobreza.
Plantamos ganância, colhemos corrupção.
Plantamos irresponsabilidade, não colhemos nada. 
 
O Brasil não é mais o país do futuro. É  um país de ficção perigosamente real. É o país do faz-de-conta, onde tudo pode acontecer por baixo dos panos. Onde as pessoas são assaltadas, assassinadas, violadas, injustiçadas bem debaixo das nossas barbas e memos assim viramos para o lado, como se ao lado não fosse acontecer nenhuma desgraça. Mas a verdade é que acontece.
 
A verdade é que temos medo de sair à rua. Temos medo de ficar em casa e medo pelos que amamos. Temos medo de não chegar ao fim do mês com o nosso salário, medo de, de repente, não termos mais salário. Temos medo de não haver leito em hospital quando precisarmos, do dinheiro não chegar para os nossos medicamentos, medo das cláusulas de exclusão do nosso plano de saúde. Medo de não poder mais pagar o plano de saúde e depender da saúde pública. Temos medo de terminar a escola e começar uma carreira, porque as faculdades para os carenciados são para os ricos e as que custam uma exorbitância não nos preparam para nada. As universidade abarrotam e temos medo de sobrar na seleção final. Temos medo de nos formar e o canudo não abrir porta alguma. Temos medo das escolas públicas pelas greves constantes, e medo das particulares pela exagerada mensalidade. Temos muito medo e não fazemos nada.
 
Assistimos a tudo ao vivo e a cores. Pagamos, e caro, para manter no poder pessoas que se auto-intitulam políticos, mas que de política não sabem nada. Pseudo-políticos que adoram aumentar o próprio salário e fingir que trabalham quando trabalham. Pseudo-políticos que quando tem de decidir, nada decidem. Pagamos pelo nepotismo, pela ingovernabilidade e pelas CPI's que nem para entreter servem. Votamos por falta de escolha, elegemos por aparência, fazemos campanha não porque acreditamos, mas porque sairemos lucrando. Sabemos que temos um sistema partidário corrupto, um colégio eleitoral falido, uma distribuíção de poderes desnivelada. Sabemos tudo isso e nada fazemos.
 
O Brasil não terá solução enquanto acreditarmos que resolve andar de carro com a janela fechada. Que dizer não a quem nos pede dinheiro na rua é a única forma de ajuda que nos resta. Que condomínio fechado é sinônimo de segurança. Enquanto acharmos normal termos menos liberdade em prol de nos sentirmos mais seguros. Enquanto acreditarmos que novelas e Big Brothers são cultura para o povo.  Enquanto igrejas monopolizarem todos os canais de informação, enquanto acreditarmos mais na fé do que na cidadania. Enquanto considerarmos normal viver com medo. Enquanto esperarmos horas e horas por um avião que não parte e não podermos nem esperar sentados. Enquanto acharmos que tudo tem solução e que tudo acaba se ajeitando no final.
 
Acreditando nisso é o caminho para o horror. Acreditarmos que está tudo bem, ou não estando, que não podemos fazer nada, faz com que mais políticos roubem, mais ladrões surjam, faz aumentar a impunidade e a pobreza, faz com que não confiemos nos serviços públicos, na saúde pública, na educação pública, no transporte público, enfim, faz com que não confiemos em nada público. E, pior de tudo, faz com que tenhamos de nos horrorizar com um menino a ser arrastado até a morte por um carro roubado ou por 200 pessoas morrerem na explosão de um avião que embateu num angar por fatores alheios, por um detalhe, por um descuido. Descuido esse que poderia ter sido evitado se tivéssemos prestado mais atenção. Se tivéssemos gritado mais alto. Se tivéssemos agido mais cedo.
 
Enquanto nos horrorizarmos, ainda há esperança. Mas só isso não basta. Temos direitos e esses direitos devem ser garantidos e defendidos a todo o custo. 
Queremos não um país do futuro, mas um país do agora, um país que nos dê orgulho de sermos brasileiros. Queremos saber o que é ser brasileiro. Sentir orgulho ao dizer que somos brasileiros. E ,de um vez por todas, fazer com que o mundo saiba o orgulho que é ser brasileiro.
 
Cláudio R. D. Carneiro (direto do próprio exílio)
 

quinta-feira, junho 28, 2007

Big Bang

Não consigo lembrar-me do que vi primeiro. Tu ou o meu amor por ti.
Sinto como se tivesse sido uma coisa só. Tu eras o meu próprio amor.
Vi-te e me vi ao mesmo tempo. Cumprimentei-te e gaguejei.
Acho que teu perfume invadiu-me de imediato. Desde então nunca mais respirei sossegado.
O vírus do amor crônico, daqueles que nunca nos abandonam, tornou-me escravo e me libertou daquilo que alguém definiu como vida, mas na verdade era nada, até aquele preciso momento.
De repente toda a forma de arte me espelhava.
Compreendi o significado do mundo e suas forças.
Foste o meu despertar e meu eterno sonho.
A minha evolução como pessoa começara naquele instante.
Nunca viria a ter-te.
Mas também nunca viria a perder-te.
Nem mesmo a mim.

domingo, junho 10, 2007

Saudades Nº1

Tenho um altar dentro de mim
onde, dentro de uma linda caixa de cristal penetrável e transparente,
guardo o coração que já foi teu.
Lúcido, vibrante, enérgico,
ele bate infinitamente com amor e viscosidade.
Sinto saudades do que éramos quando estávamos juntos,
mas não sinto de ti como és agora.
O ontem já foi perdido e é no hoje que te tenho.
Foste o elo mais forte que alguma vez conheci,
terminou porque tinha que terminar,
já desenterrei tudo que podia para poder ir beber desse amor quando necessitar.

sábado, junho 09, 2007

O mais profundo espelho

Há vários reflexos de mim no espelho
Nenhum que me sirva por completo,
mas cada um, um ser a parte.
O maior conflito é não poder ser todos
e sentir a dor de sufocar alguns de mim.
Porque estes precisam ser inteiros, espaçosos, completos,
e estes não podem ser eu.
Eu quero ser os que compartilham, os que dão a vez ao outro,
o que cansa e passa a vez, de vez em quando.
Quero ser aqueles que são múltiplos e convexos,
aqueles que confundem qualquer tipo de identificação.
Os definidos e egoístas, embora fortes, devem ser removidos de mim,
pois seriam o meu fim.
É essa a minha luta.

segunda-feira, junho 04, 2007


Espero que esteja telefonando para mim!

faith additional lyrics

Em 89 o Robert Smith, do The Cure, improvisava letras a algumas músicas. Ele criava-as ali, naquele momento. Olha que bonito estes versos.




Introdução

Vieste de boa vontade e eu não tinha nada para mostrar
Eu chamei e vieste
e eu me travesti de mim mesmo
Vesti todas as roupas de meu armário, velhas e puídas
Sorri como eu lembrava que eu sorria
Fingi que faiscava ao falar do meu passado,
mas já o vivi demais, já o gastei demais.
Não havia nada em mim,
nem vontade nem paralisia,
nem temor nem charme
nem conquista nem fuga.
Mesmo assim quiseste a verdade,
minhas aflições já gastas e indecisas,
meus suspiros constantes,
minha sujeira acumulada.
E eu dei-te tudo que pediste,
assim como vieste,
eu disse.
E assim foste embora,
e eu fiquei.

quarta-feira, maio 23, 2007

O Invento

Sempre achei difícil te inventar,
mas nunca impossível.
Durante toda a minha vida fui em busca dos ingredientes os mais pitorescos,
dos mais inexistentes aos mais inatingíveis.
Nunca desanimei, nem quando derramava tudo ao chão
e tinha de recomeçar do zero.
Eras o mais perfeito,
eras a invenção da minha esperança de te inventar.
Mas isso foi há muito tempo atrás,
muito antes de eu enterrar a receita, rasgar o mapa e queimar o caminho.
Hoje nem pronto te compro.
No máximo pego-te emprestado para depois poder devolver.
Se valer a pena, quem sabe,
venha um dia a te encomendar.
Mas isso é invenção da minha cabeça.

segunda-feira, maio 21, 2007

Invasor

Alguém acordou em mim
viu meu rosto no espelho
e esqueceu de sorrir como eu costumava fazer.
Que péssimo intérprete de mim mesmo!
Como posso conviver com alguém assim?
Não decorou nem as falas nem as reacções,
e vive a espera que lhe dêem a próxima deixa.
Espera ser eu e não sabe nem como eu me visto
Acha que sou uma pessoa como outra qualquer,
e fácil de ser interpretado.
Engana-se se pensa que vou ajudá-lo.
Não vou nem lembrá-lo como eu sou.
Que ele viva em mim até me conhecer,
que ele descubra por si mesmo porque me abandonei
e deixei-me a deriva.
Quando ele implorar eu me aceitarei de volta.
E talvez o deixe aplaudir-me.

Homem-Bomba

Sou um assassino em série,
Não te quero perder, mas levo-te para a multidão e corro.

Por mais que eu tente eu não te esqueço,
e isso só te devora em mim.

Sou péssimo a guardar lembranças e ótimo em inventar desilusões.

Invento milhares de vidas e nenhuma me serve.

Nem a palma da minha mão eu conheço,

muito menos o que ela deseja tocar.

Sigo tateando e tropeçando sem nunca cair,
sem nunca machucar-me

e também sem nunca realmente prosseguir.

Paro para olhar, na esperança de estar em outro planeta,

mas a gravidade é voraz.

Queria apodrecer, mas nem isso,

pois o barro que sou feito condena-me.

Meus olhos foram-me tirados no check-in,

Meu coração extraviou-se
e meu destino nunca chegou a embarcar.
Espalhei-me e não me consigo juntar,

e confundo todas as partes com os mesmos erros.

Engano-me no perfeito
pois de imperfeito já me basto.
O mesmo imperfeito que me esvazia e me falta.

Meu grito é mental,
mas é uníssono a todo o som que escuto.
Existem milhares como eu
,
mas nenhuma parte se encaixa e nem se deixa encaixar.
As tempestades só acontecem na tv,

e fazem-me sonhar.

Um dia eu ainda serei notícia.