quarta-feira, setembro 17, 2008

A Costela de Adão

Moldei-te no meu imaginário
e encaixei o molde em meu coração
Não precisas de chave, senha ou consentimento
Quando eu te ver, saberás o quanto sou tua
Há outros que tentam explicar como isso acontece
eu nego qualquer explicação
Serei tua amante necessária
no momento que fixares os olhos em mim.
Se de alguma costela fui formada,
saberei naquele exacto momento que foi a tua
e teu corpo exigirá de volta o que a inocência dispensou.
Se queres a costela, meu senhor sempre amado,
terás de aceitar meu coração
e meu olhar e minha gargalhada
E pedirás por mais, pois eu sei
que o que tenho para dar-te não é suficiente
Oxalá nunca será
Pois o que tenho é incomensurável
insaciável e infinito
Mas venhas logo
Apareças logo
Senta-te logo
Pois há um fogo em mim que me consome
desde que comecei a te amar.

Poema de Amor

Odeio-te!
Mais do que odiar-te
odeio o lado da minha cama que não dormes
a assombrar-me sempre que acordo
odeio o travesseiro sem teu cheiro
e a desnecessária mania de aconchegá-lo
Odeio a toalha que não te secas e os teus chinelos dentro do armário
a espera que algum dia voltes a usá-los
Odeio o teu lugar vazio no cinema e a tua falta de comentários
e o teu número de telefone que não uso quando quero,
Odeio ter de encontrar motivos para usá-lo
Odeio motivos para falar contigo
quando antes eras todo o motivo que eu tinha
Odeio ouvir músicas que ouvi contigo
sem saber o que fazer com o que sinto ao ouvi-las
Odeio a porta da minha casa que não se abre
nem antes e nem depois de eu chegar
Odeio que as pessoas ainda vejam-te em mim
Odeio que as pessoas não te vejam em mim
Odeio sufocar-me todos os dias com a tua ausência
Odeio tua ausência ser completa
Odeio-me a amar-te completa e ausentemente.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Amores Felinos

Ás vezes, podes não perceber,
Mas tenho muito medo de mim.
Adoro-me como sou,
mas há contornos meus que nem eu gosto, intrínsecos
e sei que os vês.
Tenho medo de me domesticar,
mas às vezes isso é preciso
pelo bem do amor amigo.
Queria saber ser diferente.
Até sei, repetidamente.

Por outro lado,
adoro-te inconstante,
embora eu erre no vocabulário
e talvez no tom,
é mais curiosidade que crítica.
Como o gato que arranha para descobrir,
mas às vezes machuca.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Arma Secreta

Usei o meu mais profundo segredo
sem pensar ou pestanejar
Desequilibrei meus sentimentos
que até agora estão a reverberar
Não sei se joguei baixo
Ou fui simplesmente sincero,
ou, em última análise, incauto.
A verdade é que mesmo tendo ganho a batalha,
a derrota é a sensação que quando vejo, paira.

quinta-feira, julho 24, 2008

Arrastão

Meu amor, as coisas que lembramos quando bate a insónia

Apareces sempre sem avisar

Ontem quem não avisou fui eu

Cheguei e como sempre estavas lá

Na casa da memória és dono, eu sou visita

Gostei de ver-te, inclusive de saber que estás bem e feliz

Desculpa por atrapalhar a tua vida,

Em obrigar-te a te lembrares de mim nas minhas  próprias lembranças

E justamente do modo como eu lembro de nós.

Não é perseguição, embora pareça

Mas o amor não evapora

O amor não é singular como dizem.

Não é traição, embora pareça

Mas a paixão foge, e há dias que visita-nos sem avisar

Ela é pior que arrastão, tenho de confessar

Ela ainda está cá, e tu também.

Não sei quem vai embora primeiro,

Mas sei quem virá para me reanimar.

 

 

 

terça-feira, novembro 13, 2007

Historieta

I
Amei-te inexplicavelmente mais e mais tempo depois de ti
Criei superpoderes neuróticos e inúteis
Sofri intermitente
Senti-me enganado e evadido
Sofri por quem não eras e por quem pensava que eras
E afinal sofri por nada
Nem por mim, nem por ti, nem pelo início
Sofri inutilmente
Assim concluído, neguei os poderes e comecei a viver
II
Veio o arrebatamento
A tempestade como nunca tinha experimentado e aprendi a paixão
A intensidade sufocou-me
A luminosidade cegou-me
A sede secou-me e mesmo assim quis mais
Viciei-me no mel do nosso leito
Desintoxiquei, libertei-me e asustei-me
Passei a brincar de ser feliz
III
Pensei-te inofensivo
Fui-te volátil
E, de repente, num só gesto era todo teu
Fomos festa e felicidade
Fogos de artifício e alegria
Vivi liberdade e dependência
Mas alguma medida foi demais
Cochilei e quando acordei tudo mudara
Tudo trocara de lugar, inclusive o meu espelho
As cores fugiram e o ar ficou rarefeito
O para sempre se instalou
Viramos permanência mas não sobrevivemos
Ainda somos um do outro, mas em outro tempo.
IV
Persegui-te a todo o custo
e não percebi o quão fácil era ter-te em meus lábios
Pensei em brincar de amar e amei verdadeiramente
Pensei em brincar de ser feliz e o sonho virou realidade
A chuva fazia-me lembrar de ti
Cruzei oceanos para te ter somente para mim
O terreno era outro, eu era outro, tu eras outro
Era tudo ígual, mas não sabíamos nada de nós no teu reino
Eu temi por mim, e tu não me compreendes-te
Sofri por ti e por todo o resto
Trago-te em meu bolso
Ainda não sei o que fazer com o que sobrou de ti.
V
Deixaste-me desnorteado
Perdi a noite e o dia
A minha bússola descompassou
Vivi de migalhas e por algum tempo isto serviu
Quem tu eras não me interessava
O que eu sentia era o que tu eras em mim
E isso me transtornava numa embriaguez constante e morna
Fui impaciente, certamente por instinto
E a realidade era demais para ti
Muito ficou e nada se sabe do que ficou
Ainda te quero, mas não sei o quanto
VI
Meu escudo é mais forte do que imaginava
Embaixo do escudo sou pedra, e embaixo da pedra me auto-medico.
Nunca entro em ebulição, só me esparramo.
O tapete que puxaste dos meus pés era o meu favorito
Era o meu tapete voador de sonhos e histórias do meu passado
Era o tapete de uma das minhas portas de entrada, a que batia mais intensamente.
Aprendi com os gatos a cair sempre de pé, mas desta queda nunca mais me levanto.
Ao caminhar sob uma camada de gelo escorreguei
alguma parte de mim se afogou, a outra gelou
Tenho mais vidas, mas nenhuma é contigo
Hei um dia de me procurar
VII
Escrever de ti ainda dói
Ou simplesmente não sinto
Não posso mudar quem eu sou, mas mudei
Queria mudar quem tu és, mas não posso
Somos um só
mas este um perde-se
E não olhamos para a frente
Não tropeçamos nem vivemos
Passamos simplesmente
O público aplaude
Seremos farsa ou romance?
Há de chegar o dia em que não seremos mais nossos próprios protagonistas
Neste dia não me reconhecerás, e eu serei outro
A felicidade me persegue, mas a felicidade é cigana.
Quero minhas vidas de volta e quero outras
Não importa que eu morra ou volte a morrer
O barro do qual sou feito é mais resistente
E não tenho medo de perder o que não tenho
Nem o que já tive
Mesmo que eu não o saiba
Mesmo que eu não acredite
Mesmo desistindo
Não me preocupo
Meu rumo é como uma flecha
O alvo estará lá para eu o acertar.

quarta-feira, julho 18, 2007

Ser brasileiro é...

O Brasil é um país próspero. Nossa patria amargamente amada, onde tudo que se planta infelizmente cresce.
Plantamos ganância e colhemos corrupção. Plantamos indiferença, colhemos violência.
Plantamos leis dúbias e furadas, colhemos impunibilidade. Plantamos enriquecimento, colhemos desníveis sociais
Plantamos desrespeito, colhemos ódio. Plantamos anafalbetismo, colhemos pobreza.
Plantamos ganância, colhemos corrupção.
Plantamos irresponsabilidade, não colhemos nada. 
 
O Brasil não é mais o país do futuro. É  um país de ficção perigosamente real. É o país do faz-de-conta, onde tudo pode acontecer por baixo dos panos. Onde as pessoas são assaltadas, assassinadas, violadas, injustiçadas bem debaixo das nossas barbas e memos assim viramos para o lado, como se ao lado não fosse acontecer nenhuma desgraça. Mas a verdade é que acontece.
 
A verdade é que temos medo de sair à rua. Temos medo de ficar em casa e medo pelos que amamos. Temos medo de não chegar ao fim do mês com o nosso salário, medo de, de repente, não termos mais salário. Temos medo de não haver leito em hospital quando precisarmos, do dinheiro não chegar para os nossos medicamentos, medo das cláusulas de exclusão do nosso plano de saúde. Medo de não poder mais pagar o plano de saúde e depender da saúde pública. Temos medo de terminar a escola e começar uma carreira, porque as faculdades para os carenciados são para os ricos e as que custam uma exorbitância não nos preparam para nada. As universidade abarrotam e temos medo de sobrar na seleção final. Temos medo de nos formar e o canudo não abrir porta alguma. Temos medo das escolas públicas pelas greves constantes, e medo das particulares pela exagerada mensalidade. Temos muito medo e não fazemos nada.
 
Assistimos a tudo ao vivo e a cores. Pagamos, e caro, para manter no poder pessoas que se auto-intitulam políticos, mas que de política não sabem nada. Pseudo-políticos que adoram aumentar o próprio salário e fingir que trabalham quando trabalham. Pseudo-políticos que quando tem de decidir, nada decidem. Pagamos pelo nepotismo, pela ingovernabilidade e pelas CPI's que nem para entreter servem. Votamos por falta de escolha, elegemos por aparência, fazemos campanha não porque acreditamos, mas porque sairemos lucrando. Sabemos que temos um sistema partidário corrupto, um colégio eleitoral falido, uma distribuíção de poderes desnivelada. Sabemos tudo isso e nada fazemos.
 
O Brasil não terá solução enquanto acreditarmos que resolve andar de carro com a janela fechada. Que dizer não a quem nos pede dinheiro na rua é a única forma de ajuda que nos resta. Que condomínio fechado é sinônimo de segurança. Enquanto acharmos normal termos menos liberdade em prol de nos sentirmos mais seguros. Enquanto acreditarmos que novelas e Big Brothers são cultura para o povo.  Enquanto igrejas monopolizarem todos os canais de informação, enquanto acreditarmos mais na fé do que na cidadania. Enquanto considerarmos normal viver com medo. Enquanto esperarmos horas e horas por um avião que não parte e não podermos nem esperar sentados. Enquanto acharmos que tudo tem solução e que tudo acaba se ajeitando no final.
 
Acreditando nisso é o caminho para o horror. Acreditarmos que está tudo bem, ou não estando, que não podemos fazer nada, faz com que mais políticos roubem, mais ladrões surjam, faz aumentar a impunidade e a pobreza, faz com que não confiemos nos serviços públicos, na saúde pública, na educação pública, no transporte público, enfim, faz com que não confiemos em nada público. E, pior de tudo, faz com que tenhamos de nos horrorizar com um menino a ser arrastado até a morte por um carro roubado ou por 200 pessoas morrerem na explosão de um avião que embateu num angar por fatores alheios, por um detalhe, por um descuido. Descuido esse que poderia ter sido evitado se tivéssemos prestado mais atenção. Se tivéssemos gritado mais alto. Se tivéssemos agido mais cedo.
 
Enquanto nos horrorizarmos, ainda há esperança. Mas só isso não basta. Temos direitos e esses direitos devem ser garantidos e defendidos a todo o custo. 
Queremos não um país do futuro, mas um país do agora, um país que nos dê orgulho de sermos brasileiros. Queremos saber o que é ser brasileiro. Sentir orgulho ao dizer que somos brasileiros. E ,de um vez por todas, fazer com que o mundo saiba o orgulho que é ser brasileiro.
 
Cláudio R. D. Carneiro (direto do próprio exílio)
 

quinta-feira, junho 28, 2007

Big Bang

Não consigo lembrar-me do que vi primeiro. Tu ou o meu amor por ti.
Sinto como se tivesse sido uma coisa só. Tu eras o meu próprio amor.
Vi-te e me vi ao mesmo tempo. Cumprimentei-te e gaguejei.
Acho que teu perfume invadiu-me de imediato. Desde então nunca mais respirei sossegado.
O vírus do amor crônico, daqueles que nunca nos abandonam, tornou-me escravo e me libertou daquilo que alguém definiu como vida, mas na verdade era nada, até aquele preciso momento.
De repente toda a forma de arte me espelhava.
Compreendi o significado do mundo e suas forças.
Foste o meu despertar e meu eterno sonho.
A minha evolução como pessoa começara naquele instante.
Nunca viria a ter-te.
Mas também nunca viria a perder-te.
Nem mesmo a mim.

domingo, junho 10, 2007

Saudades Nº1

Tenho um altar dentro de mim
onde, dentro de uma linda caixa de cristal penetrável e transparente,
guardo o coração que já foi teu.
Lúcido, vibrante, enérgico,
ele bate infinitamente com amor e viscosidade.
Sinto saudades do que éramos quando estávamos juntos,
mas não sinto de ti como és agora.
O ontem já foi perdido e é no hoje que te tenho.
Foste o elo mais forte que alguma vez conheci,
terminou porque tinha que terminar,
já desenterrei tudo que podia para poder ir beber desse amor quando necessitar.

sábado, junho 09, 2007

O mais profundo espelho

Há vários reflexos de mim no espelho
Nenhum que me sirva por completo,
mas cada um, um ser a parte.
O maior conflito é não poder ser todos
e sentir a dor de sufocar alguns de mim.
Porque estes precisam ser inteiros, espaçosos, completos,
e estes não podem ser eu.
Eu quero ser os que compartilham, os que dão a vez ao outro,
o que cansa e passa a vez, de vez em quando.
Quero ser aqueles que são múltiplos e convexos,
aqueles que confundem qualquer tipo de identificação.
Os definidos e egoístas, embora fortes, devem ser removidos de mim,
pois seriam o meu fim.
É essa a minha luta.